
Em 23 de julho de 2025, a Suprema Corte da Rússia proibiu o chamado ‘movimento satânico internacional’ e o declarou uma organização extremista. O problema é que esse movimento não existe. Veículos independentes como Meduza e a ONG Department One confirmaram que nenhuma estrutura organizada desse tipo está operando no país.
O que existe é um padrão. O juiz que assinou a decisão, Oleg Nefedov, é exatamente o mesmo magistrado que em 2023 baniu o igualmente inexistente ‘movimento internacional LGBTIQ+’. Em ambos os casos, o Estado russo construiu um inimigo sem corpo, sem sede, sem liderança verificável, e então o declarou ilegal. A manobra tem uma lógica fria: quando uma organização fictícia é proibida, ninguém pode contestar a proibição na Justiça, porque fazê-lo implicaria identificar-se como membro do grupo proibido. O recurso legal desaparece antes que alguém possa exercê-lo.
A medida foi impulsionada pelo Patriarca Kirill de Moscou, que em janeiro de 2025 havia dito ser ‘inaceitável’ que seitas satânicas operassem livremente, e foi celebrada pelo Gabinete do Procurador-Geral como ‘uma vitória na luta eterna do bem contra o mal’. O que os especialistas consultados pela France 24 apontam é que a norma pode ser usada para processar qualquer pessoa acusada de pregar ‘os princípios gerais do satanismo’ ou de organizar ‘rituais ocultos’, termos amplos o suficiente para incluir quase qualquer pessoa que o Estado decida atingir.
