Irena Sendler tinha uma autorização para entrar no Gueto de Varsóvia. Ela dizia que ia inspecionar casos de tifo. Ninguém verificava o que ela levava para fora quando saía.
Entre 1940 e 1943, ela contrabandeou cerca de 2,500 crianças judias escondidas em sacos de estopa, caixas de ferramentas, ambulâncias e até caixões. Ela as levava para famílias polonesas, conventos, qualquer lugar onde uma criança pudesse deixar de parecer o que era.

Mas tirá-las de lá vivas não era suficiente para ela. Sendler sabia que, para sobreviver, aquelas crianças precisavam esquecer seus nomes, seus pais, sua língua. Então, antes de entregá-las, ela anotava em papel de seda quem elas realmente eram: seu nome judeu, os nomes de seus pais, o endereço onde haviam morado.
Ela guardava esses papéis em potes de vidro. Enterrou-os sob uma árvore, em um jardim de Varsóvia, esperando que alguém, algum dia, pudesse desenterrar não apenas o papel, mas toda a identidade de uma criança que o mundo havia tentado apagar.

Em 20 de outubro de 1943, a Gestapo a prendeu. Levaram-na para a prisão de Pawiak e quebraram seus pés e pernas. Ela não revelou nenhum nome. Nem o de uma criança, nem o de um colaborador, nem a localização dos potes.
Ela sobreviveu. Quando a guerra terminou, voltou ao jardim e desenterrou as listas. A maioria daquelas crianças já não tinha família esperando por elas: seus pais haviam morrido nos campos. Mas pelo menos sabiam quem tinham sido.
Sendler viveu o resto da vida sem se chamar de heroína. Repetiu, até o fim, que poderia ter salvado mais.
É isso que sempre dizem aqueles que salvaram quase tudo o que podia ser salvo.
