Merced Guimarães só queria construir uma piscina no quintal de sua casa no bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro. Foi em 1996, enquanto os pedreiros escavavam as fundações, que os primeiros maxilares humanos apareceram sob o contrapiso.

O que ela encontrou não era uma sepultura isolada. Sua casa, construída em 1866, ficava no principal local de descarte de africanos escravizados que morreram de disenteria ou varíola após a travessia do Atlântico. «Encontrei os restos mortais de um holocausto», ela mesma confessou à BBC, descrevendo os corpos que haviam sido cremados e amontoados em trincheiras sob seu próprio piso.

Hoje, aquele quintal abriga o Instituto Pretos Novos de Pesquisa e Memória, com mais de 40.000 restos mortais humanos e 300.000 visitantes por ano. 21 anos após a descoberta, o local continua à beira de fechar devido à falta de financiamento estatal no Brasil, o último país ocidental a abolir a escravidão.
