Vozinha escreveu isso horas antes de enfrentar o campeão do mundo. Não foi um grito de guerra: foi uma profecia.
«Haverá mais do que 11 jogadores: será um povo inteiro em campo. Porque não há ilhas. Não há distância. Não há fronteiras. Somos uma só bandeira.»
E foi assim que ele jogou. Como se por trás das suas luvas estivesse a empurrar meio milhão de pessoas, mais toda a diáspora espalhada pelo mundo, mais os milhões de desconhecidos que em três semanas adotaram Cabo Verde como a sua segunda pátria.
Aos 40 anos, no seu primeiro Mundial, o guarda-redes que aprendeu a fazer defesas vendo vídeos porque na sua ilha não havia treinadores de guarda-redes, anulou a alma do maior jogador de todos os tempos. Uma, duas, três vezes disse não a Messi, o ídolo com quem sonhara defrontar-se. Estendeu a agonia do campeão até um prolongamento que ninguém imaginava, e só um desvio, a nove minutos do fim, conseguiu batê-lo.
Quando tudo acabou, ergueu as luvas para o céu e aplaudiu o seu povo, encharcado, com o olhar de quem tinha dado absolutamente tudo.
Ele próprio tinha dito: «Oxalá um dia as crianças queiram ser como um futebolista de Cabo Verde.» Depois deste Mundial, Vozinha, já não é preciso desejá-lo. Milhões de crianças, na tua terra e em todo o lado, aprenderam o teu nome.
Tinhas razão: não há ilhas. Hoje o mundo inteiro foi Cabo Verde. ![]()
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