Nayarit Colmenares não sabia quanto tempo havia passado sob o concreto. Dois dias, calculou depois, sem ver nada, respirando poeira e gás, ouvindo a água infiltrar-se pelos escombros do edifício Palmar Este 1, em Caraballeda, La Guaira. Cada vez que estendia a mão para tatear o espaço, algo afiado cortava sua pele.


Lá embaixo, entre o concreto e a tinta derramada, ela encontrou o corpo do marido, Henry. Os terremotos de magnitude 7.2 e 7.5 que sacudiram o norte da Venezuela o haviam levado, enquanto ela permanecia presa, respirando o mesmo ar que ele já não respirava.


Resgataram-na com vida. Mas o ferimento em sua mão direita infeccionou, e os médicos em Caracas lhe deram apenas uma opção: amputá-la antes que a infecção chegasse à sua corrente sanguínea.


Hoje, Nayarit, arquiteta e ilustradora, sente palpitações e choques elétricos nos dedos que já não tem e pratica assinar o próprio nome e pintar com a mão esquerda enquanto sua irmã tenta arrecadar 100,000 euros para uma prótese biônica. «Perder meu marido dói mais do que perder minha mão», disse ela.


